O caso para a ciência cidadã na Amazônia

November 9, 2017

A Amazônia é grande. A Amazônia é remota. A Amazônia é indecifrável. Ou, pelo menos, é o que a ciência tradicional poderia nos dizer. A escala da Bacia Amazônica é assustadora (é aproximadamente do tamanho dos Estados Unidos), particularmente se nosso objetivo é responder a questões usando o método científico, um método que depende de amostragem sistemática e representativa para garantir que o estudo reflita a entidade maior em questão. Sem a vantagem uma rede de estradas ou aeroportos para facilitar o acesso à Amazônia, realizar a amostragem representativa implica em um enorme consumo de recursos financeiros e tempo dos cientistas – imagine a complexidade de criar campos de pesquisa em florestas densas ou de transportar suprimentos em terrenos difíceis de lugares longínquos. No entanto, será que envolvendo outros atores da sociedade seria possível alcançar a escala necessária para responder a questões científicas?

Isto é o que a ciência cidadã propõe. Amazônia pode ser grande, remota e difícil de trabalhar em pequenos grupos de cientistas profissionais, a Amazônia não é uma região selvagem e vazia. É cheia de pessoas que possuem conhecimentos locais e são capazes de elaborar perguntas sobre seu próprio ambiente, coletar observações e usar essa informação para prever possíveis impactos e determinar métodos apropriados de mitigação e monitoramento. É justamente aí que a ciência cidadã entra.

A ciência do cidadão refere-se à participação coletiva de não especialistas comprometidos em fazer observações e responder a perguntas sobre o mundo. Na Amazônia, envolver pessoas para coletar observações sobre fenômenos ou tendências naturais pode ser conveniente tanto para a ciência como para as comunidades. Desta forma se podem gerar informações comparáveis ​​à escala local e regional – o que seria proibitivamente difícil para a ciência tradicional. Isso não quer dizer que a ciência cidadã seja necessariamente nova na Amazônia. Os objetivos de conservação e as origens culturais locais levaram a diferentes tipos de modelos de participação cidadã nesta região.

Há muitos exemplos de modelos ao longo do tempo. Entre eles está um dos mais antigos projetos de monitoramento participativo na floresta alagada das Reservas de Desenvolvimento Sustentável de Mamirauá e Amanã. Os cidadãos locais perceberam que, através do monitoramento, eles poderiam encontrar maneiras de melhorar o gerenciamento de pirarucu (Arapaima gigas), um importante pescado. Outro modelo que cresceu em popularidade é o programa de turismo voluntário, neste caso as agências de turismo oferecem passeios com ações de coleta de dados ou outras atividades voluntárias. Ao mesmo tempo, esta ação reconhece a falta de financiamento para pesquisa e tem a vantagem adicional de atrair novos públicos para a ciência e para conservação. Uma experiência bem-sucedida deste modelo é a parceria entre a Rainforest Expeditions, o Projeto de Macaw Tambopata e o Earthwatch Institute no Peru, neste projeto os turistas vivenciam a Amazônia enquanto ajudam a monitorar as populações de papagaios. A educação ambiental também oferece oportunidades importantes para consolidar a consciência ambiental e científica – no Equador, por exemplo, o projeto Minga Para Mi Rio envolve crianças que vivem próximas ao rio San Pedro para conhecer os ecossistemas aquáticos, em seguida elas aplicar seu conhecimento na limpeza, restauração, e conservação do rio.

Um projeto mais recentemente lançado é o Ciência Cidadã para a Amazônia, o qual investiga o incremento do conhecimento científico através de dados produzidos de forma colaborativa sobre peixes e condições das águas da Bacia Amazônica. O projeto está criando uma rede de organizações parceiras e contribui para os objetivos da Iniciativa Águas Amazônicas, melhorando a nossa compreensão das migrações de peixes e os fatores ambientais que estão relacionados com o fenômeno. Esta abordagem promove a formação de uma população informada sobre sobre a conservação e empodera cidadãos para para cuidar da bacia amazônica, garantindo o engajamento e a conservação a longo prazo.

Os avanços tecnológicos recentes criaram oportunidades favoráveis ​​para aumentar nosso conhecimento sobre a Amazônia, incluindo suas águas. Mais pessoas podem se comunicar e responder a perguntas que podem ter impacto em escala local e regional. Por exemplo, os dados obtidos por colaborativamente podem ser usados ​​para desenvolver um plano de manejo para uma determinada área de pesca, informar uma política de governo a nível local, regional ou nacional de qualidade de água, e garantir que você continue comendo seu peixe favorito de forma sustentável. Ou simplesmente, pode lembrar que enquanto a Amazônia é grande, é tudo menos indecifrável.

 

Referências

Brightsmith, D. et al. 2008. Ecotourism, conservation biology, and volunteer tourism: A mutually beneficial triumvirate. Biological Conservation 141(11):2832-2842. DOI: 10.1016/j.biocon.2008.08.020

Citizen Science for the Amazon Project. 2017. 1st Partners Meeting Report. https://drive.google.com/file/d/0ByFivCQURRYrRkRyNWNoX0FrUms/view?usp=sharing

Eitzel, M. V. et al. 2017. Citizen Science Terminology Matters: Exploring Key Terms. Citizen Science: Theory and Practice 2(1):1–20. DOI:10.5334/cstp.96

Minga Para Mi Rio. Canal Comunidad. https://www.ivoox.com/minga-para-mi-rio-audios-mp3_rf_848230_1.html

Painter, M., et al. 2008. Landscape Conservation in the Amazon Region: Progress and Lessons, WCS Working Paper No. 34. Bozeman: Wildlife Conservation Society.

 

Escrito por Natalia Piland.