Sobre o Tambaqui

January 9, 2018

O Tambaqui (Colossona macropomum, também conhecido como Pacu ou Gamitana), é uma deliciosa iguaria comumente encontrada em mercados de peixe da Amazônia. Seu sabor diferente é devido ao hábito de subir á superfície em busca de frutas, seu alimento preferido, o qual é é facilmente encontrado nas florestas alagadas. Essa espécie ajuda na dispersão de muitas sementes de plantas com frutas suculentas e contribui para a regeneração de florestas alagadas ao longo da sua rota de migração pelas “estradas” de água doce da floresta tropical. Porém, atualmente o Tambaqui é uma das vítimas da sombra de defaunação de Manaus.

A sombra de defaunação ocorre quando a sobre-exploração de uma espécie se dá para abastecer mercados urbanos, resultando em um declínio severo da abundância de indivíduos devido ao aumento do seu consumo. Um grupo internacional de pesquisadores está estudando esse fenômeno para o Tambaqui considerando os mercados de Manaus, uma cidade amazônica com 2,1 milhões de habitantes. O grupo entrevistou pescadores rurais sobre esforço de pesca e tamanho dos indivíduos de Tambaqui capturados para saber se as populações da espécie estão sendo afetadas pela proximidade com Manaus. Em resumo, houve uma redução de 50% em tamanho e sucesso de captura para esse peixe, o que afeta populações da espécie em até 1.000 km de distância da cidade.

Essa constatação traz consequências importantes. A população da Amazônia é altamente urbanizada e continua aumentando. Ao mesmo tempo que essas localidades urbanas se tornam mais conectadas, diminuem as áreas de vida silvestre preservadas e, como consequência, diminuem também as populações de peixes saudáveis capazes de realizar processos como a dispersão de sementes que promove a manutenção de florestas alagadas. Por exemplo, Tambaquis maiores são capazes de dispersar sementes até regiões mais distantes, promovendo uma maior diversidade genética das florestas alagadas ao longo da bacia. Considerando a importância do tamanho do Tambaqui para as comunidades rurais, se a espécie continuar sendo sobre-explorada, o resultado será indivíduos menores e, consequentemente, os peixes terão uma menor área de migração, os pescadores rurais irão sofrer com o declínio da biodiversidade e tamanhos reduzidos de captura, criando um ciclo vicioso.

Então, o que fazemos?

Todo tipo de manejo do Tambaqui deve ocorrer ao longo da bacia dos rios. Como este peixe migra continuamente, as autoridades devem coordenar e legislar tanto em escala local quanto regional. Enquanto grande parte do consumo de Tambaqui acontece nas áreas urbanas, o maior volume de  pesca se dá  afastado das cidades, e é realizada por pescadores rurais que posteriormente transportam as capturas para os mercados urbanos em isopores cheios de gelo. É importante ter em conta os componentes temporais e espaciais do ciclo de vida do Tambaqui nas decisões de manejo.

Porém, às vezes decisões drásticas de manejo devem ser tomadas. Considerando a intensa ameaça que sofre a espécie, o  limnólogo Michael Goulding recomenda uma moratória completa para a pesca do Tambaqui na Amazônia,. Enquanto regulações já existem para algumas regiões, é necessário continuar as discussões sobre a moratória para que as populações da espécie possam verdadeiramente se recuperar. Dr. Goulding afirma que adultos grandes de Tambaqui são muito raros na maioria dos mercados e podem alcançar preços acima de cem dólares.

Alguns críticos combatem o argumento da ameaça de extinção justificando que, através da promoção da aquicultura, não importa o que acontecer com as populações na natureza, o Tambaqui continuará sendo um recurso abundante. Atualmente a aquicultura de Tambaqui é feita em pequena escala, a fim de evitar problemas como poluição por vazamento de nutrientes e antibióticos, mais prováveis em sistemas de larga escala. Enquanto a aquicultura continuar sendo realizada em pequena escala, pode contribuir para o manejo da espécie diminuindo a pressão de pesca sobre as populações selvagens. Entretanto, Tambaquis cultivados não exercem função para o ecossistema, como a dispersão de sementes e, portanto, não podem ser foco na conservação da espécie. Além disso, os consumidores costumam preferir o sabor do Tambaqui selvagem em detrimento do cultivado, devido àdiferença de dieta. A aquicultura desempenha um importante papel na segurança alimentar de outras cidades com diferentes espécies e com criatividade, pode estender o seu papel na conservação de ecossistemas mais amplos. É possível que indivíduos juvenis criados em fazendas desse tipo, sejam soltos em planícies de inundação que servem de berçário para a espécie, e assim ajudar a recuperar as populações de Tambaquis selvagens, porém ainda devem ser investigadas as implicações ecológicas que pode ter essa atividade.

Uma população urbana em expansão pode criar uma imensa pressão nos recursos naturais finitos, como o saboroso Tambaqui. Pesquisadores, cidadãos, políticos, e demais autoridades devem trabalhar em conjunto para criar novas oportunidades de exploração que sejam sustentáveis, se quiserem ter sempre à disposição essa iguaria deliciosa no futuro.

 

Referências

Tregidgo, D. J., et al. 2017. Rainforest metropolis casts 1,000-km defaunation shadow. PNAS 114(32): 8655-8659. DOI: https:/doi.org/10.1073/pnas.1614499114

 

Escrito por Natalia Piland.