Paisagens Aquáticas

As pessoas que vivem na Amazônia têm dado nomes específicos para os tipos de paisagens aquáticas, o que pode ser considerado como uma classificação local. O tipo das águas (pretas, brancas e claras) e a vegetação são as principais características utilizadas nesta classificação local das paisagens aquáticas. A partir dos anos 2000, quando se ampliou a facilidade de acesso a imagens de satélite, os cientistas começaram a mensurar de modo mais preciso a extensão das áreas alagadas na Amazônia e a distinguir com mais detalhes as grandes paisagens aquáticas da região. Este avanço tecnológico permitiu uma ampliação das estimativas de área ocupada por paisagens aquáticas de 2 a 4% nos anos 1970 para 12-14% em 2014, dependendo de como são definidas. Estas estimativas, no entanto, dependem de como as paisagens aquáticas são definidas. Em 2010, os pesquisadores John Melack e Laura Hess apresentaram um conjunto integrado de imagens de satélite cobrindo quase toda a bacia amazônica. A partir destas imagens foi possível realizar uma classificação das paisagens aquáticas em categorias de vegetação florestal, arbustiva e herbácea. Apesar da região andina da bacia amazônica não ter sido totalmente incluída na proposta de Melack-Hess, esta classificação pode ser facilmente adaptada às categorias da Convenção de Ramsar.

Outra classificação científica das paisagens aquáticas da Amazônia foi desenvolvida pelo Grupo de Trabalho em Ecologia do Instituto Max Planck, liderados pelo pesquisador Wolfgang Junk. Esta classificação é baseada em critérios climáticos, hidrológicos, químicos e biológicos (principalmente plantas vasculares/lenhosas). A classificação é hierárquica e se inicia com duas classes: 1) paisagens aquáticas com nível de água relativamente estável; e 2) paisagens aquáticas que apresentam flutuações no nível de água. A classificação do Instituto Max Planck é notavelmente distinta da Convenção de Ramsar sendo determinada primariamente pelas flutuações no nível de água, considerando as planícies alagáveis como uma grande subclasse. A Convenção de Ramsar não considera as planícies alagáveis como uma classe de paisagens aquáticas, ainda que nas planícies alagáveis da Amazônia sejam identificados vários tipos de paisagens aquáticas. Finalmente, a classificação do grupo do Instituto Max Planck não considera as áreas abertas dos rios e riachos (igarapés) como um tipo de paisagem aquática, resultando assim em áreas desconectadas dentro da classificação. Em contraste, a Convenção Ramsar considera os rios e riachos como um tipo de paisagem aquática, o que é extremamente útil do ponto de vista ecológico, particularmente em demonstrar a conexão entre as paisagens aquáticas e as migrações de peixes.

As classificações mencionadas acima devem ser consideradas como os primeiros passos na construção de um marco regulatório no qual as políticas ambientais podem ser baseadas. Dado o histórico da regulamentação das paisagens aquáticas na Amazônia é aconselhável iniciar com classificações simples e óbvias. O principal desafio será em quais escalas administrativas aplicar tais classificações: internacional, nacional, estadual/departamental, municipal, indígenas e outras esferas.