Por Joshua Lacerda
Nota original da Ecoporé
A equipe técnica do projeto “Ciência Cidadã como ferramenta de pesquisa em escolas ribeirinhas” retomou as atividades em Rondônia neste mês de março. A iniciativa capacita estudantes voluntários de escolas públicas para atuarem como pesquisadores da pesca artesanal, monitorando o desembarque pesqueiro em suas próprias comunidades. Em 2026, o projeto expande sua atuação para incluir duas unidades de ensino na Resex do Lago do Cuniã.
Executado pela Ecoporé em parceria com o LIP/UNIR, o projeto integra o Programa Ciência Cidadã para a Amazônia, da Aliança Águas Amazônicas, com apoio da WCS e Fundação Moore.

A escola Juracy Lima Tavares, do distrito de São Carlos participa do projeto desde de 2021 (Foto: Acervo Ecoporé)
As águas amazônicas como estradas
A dinâmica insere a ciência na rotina local: o jovem monitora o pescador de seu círculo social (pais, avós ou vizinhos), transformando o peixe que chega à mesa em dado científico. Nikolas Cintra, da equipe técnica, vê nos alunos protagonistas locais capazes de fortalecer a pesca e a conservação. “Vejo que isso pode ser uma forma eficaz de fortalecer a pesca nas comunidades”, avalia.

Pescador no rio Madeira. Foto: © Ecoporé
Para alcançar as comunidades de Cujubim Grande, Jaci-Paraná, São Carlos, Nazaré e a Resex do Lago do Cuniã, a equipe enfrenta trajetos que alternam estradas de terra e longas travessias fluviais pelo rio Madeira.
O engajamento conta com o apoio de bolsas do programa “Jovem Cientista da Pesca Artesanal” (MPA/CNPq). A estudante Fernanda Oliveira, de Terra Caída, representou Rondônia no lançamento do novo edital em Brasília: “Podemos criar boas expectativas pelo fato de ter mais alunos interessados”, projeta a jovem.
Ciência ribeirinha
A ciência no “quintal de casa”. O biólogo Felipe Lins, que acompanha alunos desde o início do ensino médio, destaca o impacto dessa imersão. Para ele, ter como objeto de pesquisa a realidade local gera um sentimento de pertencimento. “Eles começam a se perceber como ribeirinhos e a entender a magnitude do trabalho de seus próprios familiares. É uma sensação indescritível de orgulho”, relata Lins.

Escola em Porto Velho. Foto: Ecoporé
O pesquisador detalha como o vocabulário e a percepção das famílias se transformam. Lins observou alunos, antes alheios à pesca, passarem a questionar mudanças no ecossistema: “Por que comemos menos branquinhas que antes?” ou “Nossa, eu não reparava qual espécie de peixe eu comia”.
A produção científica acaba se fundindo à subsistência. Lins cita o exemplo de um aluno que, enquanto media um peixe com rigor metodológico, já conversava com a mãe sobre a produção de farinha do mês seguinte.
Para a analista ambiental do projeto, Dayana Catâneo, o engajamento começa quando o jovem compreende o privilégio de ter o rio Madeira no quintal de casa. Ao mapear as espécies e a importância da pesca para a subsistência local, o estudante ressignifica seu entorno. “Eles passam a valorizar o conhecimento tradicional de suas próprias comunidades. O projeto aproxima a ciência da realidade deles”, sintetiza Dayana.



