A Bacia Amazônica como área úmida
A Bacia Amazônica é a área úmida de água doce mais extenso e diverso do mundo. As águas amazônicas assumem múltiplas formas, desde pequenos rios alimentados por geleiras na parte alta dos Andes, acima de 4.000 metros, até o maior rio do mundo, que é cercado por lagos de inundação, florestas alagáveis e comunidades de plantas flutuantes. Em grande parte, sua alta biodiversidade está ligada às extensas florestas alagáveis, onde a vida aquática e arbórea se reúne durante as longas inundações anuais. Mesmo no final de seu percurso, o rio Amazonas fornece água doce para um enorme estuário e o empurra para oceano Atlântico.

Paisagens Aquáticas da Bacia Amazônica. Mapa: Wildlife Conservation Society, 2015.
Embora se pensasse que a Amazônia era uma grande floresta, a área atualmente reconhecida como áreas úmidas aumentou consideravelmente com a chegada das imagens de satélite e, dependendo da definição utilizada, até 800.000 km² ou 14% da porção baixa da bacia podem ser classificados como área úmida. Algumas áreas dominadas por áreas úmidas ultrapassam 50.000 km², como os pântanos dominados por palmeiras nas bacias do Marañón e do Ucayali, no Peru, e os Llanos de Mojos, no leste da Bolívia, na bacia do Madeira.
Embora as planícies de inundação do rio Amazonas representem menos de 2% da superfície da Bacia Amazônica, elas representam, desproporcionalmente, 12% das áreas úmidas da bacia. Durante os níveis mais altos do rio, inundam-se cerca de 85.000 km² da planície do rio Amazonas. Durante os níveis mais baixos da água, a área da planície de inundação diminui aproximadamente 45% e consiste principalmente em canais permanentes e lagos. A área dos Llanos de Mojos, no leste da Bolívia, é a maior área úmida (92.000 km²) da Bacia Amazônica. Outras áreas úmidas contíguas incluem a Ilha do Bananal entre os rios Tocantins e Araguaia (59.000 km²) e as planícies de Roraima, por onde flui o rio Branco, no norte do Brasil (16.000 km²).
Em geral, as áreas úmidas são reconhecidas como ecossistemas frágeis e, portanto, existe a necessidade de ações especiais e específicas de conservação, embora essas ações tenham sido lentas na Bacia Amazônica. Nas últimas três ou quatro décadas, os esforços de conservação se concentraram, em grande parte, no desmatamento das florestas de terra firme, com a consequência não intencional de não integrar os esforços de manejo da terra firme e das áreas úmidas, tendo em vista que a integridade das áreas úmidas depende da saúde das florestas de suas encostas. A ausência de termos amplamente reconhecidos e utilizados para as áreas úmidas, tanto em espanhol quanto em português, também dificulta sua conceituação.
Definiçoes
O primeiro passo para se conservar as paisagens aquáticas é definí-las adequadamente. Existem inúmeras definições de paisagens aquáticas, muitas delas elaboradas pela experiência de quem as definem. Por exemplo, hidrólogos e limnologos enfatizam as flutuações no nível de água; botânicos focam na vegetação como um marcador de certos tipos de paisagens aquáticas, enquanto os pedólogos as definem de acordo com as propriedades do solo que sustenta estas paisagens. Apesar do termo em inglês “wetland” ser comumente usado e entendido pelo público em geral, seus equivalentes nas línguas espanhola (humedal) e portuguesa (paisagens aquáticas ou áreas úmidas) são mais ambíguos e raramente bem compreendidos pelo público em geral.
Cientistas frequentemente enfatizam a necessidade de definições padronizadas, mas é uma prática que raramente, ou nunca, aconteceu em níveis federais ou estaduais. Unidades políticas, em geral, apresentam diferentes tipos de paisagens aquáticas e os gestores destas unidades obviamente estão interessadas naquelas sob suas jurisdições. O perigo de um debate inconclusivo sobre o que é um “wetland”’ é entravar o desenvolvimento de uma política para estes ecossistemas quando, como exemplo a definição de paisagens aquáticas que não incluem os próprios rios, como encontrado em algumas classificações.
Todos os países amazônicos são signatários da Convenção de Ramsar Sobre as Áreas Úmidas on que enfatiza a importância e fragilidade das paisagens aquáticas. Ramsar usa a seguinte definição geral:
“Paisagens aquáticas são áreas onde a água é o fator primário controlando o ambiente e a vida animal e vegetal. Elas ocorrem onde o lençol freático está na ou próxima da superfície da terra, ou onde a terra é coberta por água.”
Esta definição é ampla o suficiente para incluir qualquer coisa que seja aquática permitindo que definições mais específicas sejam elaboradas para áreas onde alguma combinação de aspectos locais, científicos e legais sejam necessárias para se avançar na conservação das paisagens aquáticas. Usualmente, os pesquisadores são o principal grupo a sugerir a necessidade de definições unificadoras, principalmente porque tornaria mais fácil classificar paisagens aquáticas em larga escala a partir de critérios e marcos referenciais científicos, como aqueles providenciados pela limnologia e botânica. Exemplos de definições que favorecem a presença de plantas incluem:
“Paisagem aquática é um ecossistema que surge quando o alagamento pela água produz solos dominados por processos anaeróbicos e obriga a biota, particularmente as plantas com raízes, a exibir adaptações para tolerar o alagamento. ” (Paul A. Keddy, – Wetland Ecology: Principles and conservation)
“Paisagens aquáticas são submersas ou permeadas por água, permanente ou temporariamente, e são caracterizadas por suportar plantas adaptadas a condições de solos saturados. Paisagens aquáticas incluem brejos alagados por água doce ou salgada, brejos florestados, pântanos, florestas sazonalmente alagáveis, lamaçais – qualquer área de terra que seja mantida alagada o suficiente para o desenvolvimento de plantas e solos. ” (Governo do Canadá)
A complexidade de se definir legalmente paisagens aquáticas pode ser exemplificada nas diversas definições utilizadas pelo governo federal dos Estados Unidos e por cada estado individual. Alguns exemplos que ilustram esta complexidade incluem:
“Paisagem aquática é um termo genérico para todos os tipos de hábitats úmidos – implicando que a terra esteja úmida por algum período de tempo, mas não necessariamente permanentemente alagado. ” (Serviço Geológico dos Estados Unidos)
“Paisagens aquáticas são áreas de transição entre sistemas aquáticos e terrestres onde o lençol freático está usualmente na (ou próximo da) superfície ou em locais onde a terra é coberta por água rasa. Para proposta desta classificação, paisagens aquáticas devem ter uma ou mais dos seguintes atributos: (1) a terra deve suportar, ao menos periodicamente, plantas principalmente hidrófitas (aquelas especificamente adaptadas para viver em habitats aquáticos) (2) o substrato é predominantemente composto por solos hidromórficos não drenados; e (3) o substrato é saturado por água durante algum período de cada ano. ” (Serviço Florestal do Estados Unidos)
As definições adotadas por diferentes entidades políticas podem ter importantes implicações em termos de regulamentação deste tipo de ambiente. Uma definição geral de paisagens aquáticas pode ser útil para destacar condições específicas em regulamentações que afetem a jurisdição deste tipo de ecossistema e ao mesmo tempo ser inclusivo o suficiente em termos de proteção destas paisagens como um todo.
TIPOS DE ZONAS ÚMIDAS
Campos e pântanos
Campos e turfeiras andinas
Florestas Alagáveis
Lagos
Paisagens Esturinas
Rios e riachos