Imagine-se à beira de um rio caudaloso. À primeira vista, pode parecer que apenas a água se move, mas um olhar mais atento observa que a água remexe as rochas e sedimentos , que são arrastados pelo rio. Nesse fluxo, também viajam peixes e insetos. Talvez uma ave se aproxime e observe atentamente a superfície em movimento, pronta para capturar um daqueles peixes ou insetos. Essa conexão do rio transporta elementos essenciais de um ecossistema: nutrientes, vida selvagem e água.
Na Amazônia, uma equipe de pesquisa liderada pela Dra. Elizabeth P. Anderson (Florida International University) e composta por 21 autores — dez deles parceiros da Aliança Águas Amazônicas — buscou compreender quão bem esse fluxo conecta a Amazônia Ocidental ao restante da bacia. Este é o tema do estudo “Uma linha de base para avaliar a integridade ecológica dos rios na Amazônia Ocidental” (tradução livre: “A baseline for assessing the ecological integrity of Western Amazon rivers”) na revista Nature Communications Earth & Environment.

Mapa de la Amazonía occidental. © Alianza Aguas Amazónicas
O estudo avaliou padrões relacionados à hidrologia e sedimentos, biodiversidade de peixes de água doce e conectividade dos rios ao longo de eixos longitudinais (Leste-Oeste), componentes fundamentais para sustentar a integridade ecológica dos rios da Amazônia Ocidental e suas ligações com a bacia Amazônica mais ampla. Também estimou a população humana e mapeou sua distribuição em relação aos rios. Ao caracterizar esses diferentes aspectos, torna-se possível medir como tudo pode mudar no futuro em decorrência de infraestrutura, estratégias de conservação ou outros fatores.
Principais resultados encontrados
Hidrologia e sedimentos:
O fluxo dos rios nas sub-bacias da Amazônia Ocidental é fortemente influenciado pelas chuvas. A precipitação tende a ser maior nos tributários do Norte, diminuindo em direção ao Sudeste e às áreas altas dos Andes. A análise de produção anual de sedimentos mostrou que mais de 90% dos sedimentos descarregados pelo rio Amazonas vêm dos Andes. Isto significa que sem o regime de chuvas habitual da Amazônia Ocidental, a água e os nutrientes — elementos essenciais para agricultura, biodiversidade e navegação — não chegariam ao restante da bacia. Ações de redução de emissões de gases de efeito estufa, como a transição para energias renováveis, são necessárias para minimizar os impactos das mudanças climáticas no ciclo hidroclimático.
Biota de água doce:
Foram registradas 1.868 espécies de peixes (74% da ictiofauna amazônica) nas bacias da Amazônia Ocidental, com maior riqueza no rio Madeira e menor nos rios Javari e Juruá. A bacia do Napo apresenta a maior densidade de espécies registradas. Pelo menos 76 espécies são migradoras longitudinais , Isso destaca a importância de manter os rios conectados para que essas espécies possam completar seus ciclos de vida. Embora grande parte da região permaneça inexplorada, ela ostenta a maior diversidade de peixes da bacia.
Conectividade longitudinal dos rios:
Foram documentados 13.734 cruzamentos rodoviários e 396 barragens (45,6% do total amazônico) nos rios da Amazônia Ocidental, além de outras 203 barragens propostas. A maior concentração ocorre nas bacias do Madeira, Marañón, Ucayali e Napo, enquanto Caquetá-Japurá, Putumayo-Içá, Javari, Purus e Juruá não possuem barragens atuais ou planejadas. A análise do Índice de Conectividade Dendrítica (DCI) mostrou que Madeira e Marañón registram maior perda de conectividade desde as cabeceiras. Esta linha base representa uma oportunidade: manter rios livres e conectados, evitando custos futuros associados à remoção de infraestruturas, — o que já está acontecendo em outros países.
Populações humanas:
Estima-se que 47,8 milhões de pessoas vivem na bacia amazônica, sendo 58% na Amazônia Ocidental, principalmente em zonas médias e altas dos rios. Os rios sustentam economias e culturas: elas fornecem alimentos e renda (pesca, agricultura), conectam territórios, sustentam cosmovisões indígenas e ritmos sociais como festivais e calendários escolares. Manter a conectividade dos rios garante esses vínculos e fortalece a autonomia das comunidades para a conservação.

A pesca na Amazônia ocidental, Peru. Fotografia: Diego Pérez © WCS
Imagine esse rio novamente, mas desta vez quase parado. Uma barragem interrompe o fluxo, retendo sedimentos e impede que os peixes cheguem aos seus locais de reprodução. Na Amazônia sem barragens os sedimentos andinos podem chegar ao Atlântico. O estudo propõe estratégias para manter a conectividade, como realizar o planejamento da infraestrutura considerando a escala de bacia hidrográfica, reconhecer os corredores fluviais como áreas de conservação e criar de reservas transnacionais que protejam os rios das grandes obras de infraestrutura .
Isto permite orientar as decisões de conservação entre os países. A Aliança Águas Amazônia reforça: as comunidades ribeirinhas devem liderar a gestão e o planejamento. Quando a conservação é orientada desde os territórios, os resultados são melhores. As barragens não apenas bloqueiam os rios, como também interrompem relações profundas entre as pessoas e a natureza.
Por isso, a Aliança Águas Amazônicas faz um apelo para manter o fluxo livre e saudável dos rios amazônicos.
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1 1Amazônia Ocidental inclui os rios Caquetá-Japurá, Putumayo-Içá, Napo, Marañon, Ucayali e os rios Madre de Dios, Beni e Mamoré, na parte alta da Bacia do Madeira.