O que há de novo nos dados de Ictio

O que há de novo nos dados de Ictio
novembro 17, 2020 Gabriela Merizalderubio

Em 30 de setembro de 2020, Ictio tem 38 001 observações em 20 089 listas compartilhadas por meio do aplicativo e da plataforma web. Este é o resultado do trabalho de 240 pessoas e instituições compartilhando dados. Esses dados vêm de 148 sub-bacias da Amazônia, o que representa 74% do total das 199 sub-bacias nível BL4 (de acordo com Venticinque et al. 2016 [disponível em inglês] e Um novo sistema de informações geográficas (SIG) sobre rios e bacias). Representa apenas 620 observações a mais (um aumento de 2%) em comparação com os dados de 3 de julho de 2020. O efeito da pandemia COVID-19 está sendo sentido.

Mapa 1 - Listas e observações por bacias
Mapa 1

Por meio do aplicativo Ictio foram registradas 3664 listas de pesca, com 7167 observações de peixes. O peixe mais observado continua a ser o Prochilodus nigricans, presente em 20% das listas enviadas. Em segundo lugar estão Mylossoma duriventre e Pseudoplatystoma fasciatum, ambos presentes em 13% das listas (para nomes comuns ver glossário abaixo).

 

Cinco sub-bacias já compartilharam mais de 500 observações por meio do aplicativo Ictio: Amazonas / Solimões (entre Juruá e Negro, Brasil); Pachitea (Peru) e Madre de Dios (acima de Tambopata, Peru); e as sub-bacias do Putumayo (acima de Igaro Paraná, Colômbia) e Amazonas (acima de Jandiatuba, do Peru até a fronteira entre Brasil, Colômbia e Peru) – as duas últimas já passaram das mil observações!

 

Como está o trabalho em campo com o aplicativo Ictio? Um usuário do Brasil nos conta sobre suas observações de pesca em 2020:

“Devido à pandemia, nós nos isolamos um pouco, tentamos não sair da comunidade ou deixar entrar gente de fora. Agora estamos retomando nossas atividades. Mas fizemos tudo o que podíamos com os registros de pesca. Em nossa comunidade não temos o costume de pescar para vender. Pescamos mais para a alimentação, para a escola ou quando trabalhamos nas roças, para fazer farinha de mandioca. Agora estamos no período de fazer o plantio, e pescamos para alimentar o grupo do ajuri. Com o peixe economizamos dinheiro e não é preciso comprar frango. Temos uma praia em frente à nossa comunidade e o rio se tornou um canal mais estreito – é bom para a pesca. Matrinxã (Brycon amazonicus), pirapitinga (Piaractus brachypomus) estão chegando. Tem muito pacu (Mylossoma duriventre), sardinha (Triportheus sp.) e curimatã (Prochilodus nigricans). Além do caparari (Pseudoplatystoma tigrinum) e do surubim (Pseudoplatystoma fasciatum) que pescamos muito. A pesca está abundante e continuamos com nossos registros em Ictio! ” – (Não conhece esses nomes? Consulte o glossário abaixo).

 

Pela plataforma Ictio.org, foi registrado um total de 16 425 listas de pesca, com 30 834 observações de peixes até setembro de 2020. O Instituto Fronteiras (Brasil) deu uma importante contribuição ao banco de dados do Ictio, compartilhando registros da bacia do Rio Juruá. Essas observações correspondem a mais de 300 toneladas de peixes relatados entre 2018 e 2020. As espécies de peixes com o maior número de quilos registrados foram Curimata inornata, Prochilodus nigricans e Pimelodus sp., respectivamente (para nomes comuns, consulte o glossário abaixo). Os pesos foram estimados a partir das declarações dos pescadores sobre suas capturas médias mensais – que foram somadas e apresentadas como captura anual.

Nossos dados são provenientes do registro da coleta anual de pescadores realizada pela Colônia Z-1 [em Cruzeiro do Sul, Acre, Brasil] para envio à Secretaria Federal de Pesca. Estes dados abrangem a pesca de diferentes pescadores, ao longo de vários dias, em local indefinido. Esses dados foram especificados oralmente por cada pescador, no momento do registro anual. Portanto, não são dados de uma coleção extensa, em uma metodologia científica clara, mas vêm da experiência cotidiana e da memória de cada pescador. Podem apresentar inconsistências em termos de esforço de pesca, número de quilos capturados por ano, data e local de venda, mas não em relação às espécies capturadas. Tendo em vista a falta de sistematização dos dados pesqueiros para esta região, acredita-se que esses dados coletados, mesmo diante de inconsistências, serão de grande importância para o mapeamento da pesca no Vale do Juruá ”– Instituto Fronteira.

O Instituto Mamirauá (Brasil) também compartilhou 336 observações de 40 espécies ou gêneros diferentes coletados entre 2006 e 2007 por meio de inventários realizados na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Amanã. Esses inventários foram realizados especificamente em igarapés. “Os igarapés são pequenos riachos formados em ambientes de terra firme, em áreas mais altas e caracterizados por um leito bem definido, formam uma densa rede de corpos d’água e representam uma importante área de drenagem da Bacia Amazônica. […] As comunidades de peixes dos igarapés são formadas por grupos taxonômicos muito antigos e principalmente espécies pequenas, que têm pequenas taxas de movimento. Em geral, existem principalmente espécies de Characiformes e seguidas de Siluriformes, Perciformes e Gymnotiformes”, revela a publicação “Peixes ornamentais do Amanã” (2009, p 24) (para nomes comuns ver glossário abaixo).

Qualidade de dados para melhorar o uso de Ictio

O Grupo de Colaboração Peixes da Rede Ciência Cidadã para a Amazônia fez uma revisão especializada dos dados compartilhados até junho de 2020 por meio do aplicativo Ictio para verificar sua qualidade. Esta revisão centrou-se em três variáveis: peso, preço e fotografia, e teve os seguintes objetivos:

  • Avaliar se os pesos inseridos nas observações excedem o peso máximo conhecido para uma dada espécie na Bacia Amazônica;
  • Avaliar se os preços inseridos nas observações superaram o preço máximo conhecido para uma determinada espécie em um determinado país da Bacia Amazônica;
  • Avaliar se as fotografias que acompanham as observações correspondem às espécies indicadas no registro;
  • Identificar as observações cuja informação não corresponde aos dados reais de pesca. Por exemplo, testes de atualizações do aplicativo ou observações enviadas a título de exemplo durante o treinamento de um grupo de pescadores.

Concluída esta revisão das 6922 observações, foram identificadas 679 que inseriram informação de qualidade duvidosa em alguma das variáveis avaliadas, bem como 381 observações que correspondem a testes do aplicativo. De de de forma a continuar a melhorar no registro de informação por meio do aplicativo Ictio, foi elaborado um documento de recomendações aos parceiros da Rede e promotores da aplicação. O link às recomendações estará disponível nesta nota até 15 de dezembro.

 Compartilhamos alguns gráficos para visualização dos dados até setembro de 2020. O Conjunto de Dados Básicos a escala de bacia BL4 está disponível para download em Ictio.org:

Mapa 1 - Listas e observações por bacias
Mapa 1

Até setembro de 2020, foram registradas em Ictio 38 001 observações en 20 089 listas compartilhadas via aplicativo e plataforma online. Estes dados provêm de 148 sub-bacias da Amazônia, o que representa 74% do total de 199 sub-bacias nível BL4 (conforme Venticinque et al. 2016).

Mapa 2 - Número de listas compartilhadas com o aplicativo Ictio por bacia BL4 (23 de abril 2018 - 30 de setembro de 2020).
Mapa 2
Gráfico 1 - Número total de observações por espécies (23 de abril 2018 - 30 de setembro de 2020).
Gráfico 1

Gráfico 1 – Número de observações compartilhadas com o aplicativo Ictio, por espécie (23 de abril 2018 – 30 de setembro de 2020). Do total de 7167 observações de peixes compartilhadas pelo aplicativo Ictio, 5803 (80%) são sobre as 20 espécies prioritárias. O restante,  20% (1364 observações) são da categoria “Fish Sp”, que reúne todas as observações de peixes não listados como prioritários no aplicativo. Entre as espécies prioritárias, o Prochilodus nigricans é a espécie com mais observações – quase o dobro da segunda espécie mais observada, (Mylossoma durivente). Somente foram registradas 50 observações de Brachyplatystoma vailantii. Essa informação foi gerada por 234 usuários de Ictio.

 

Glossário de espécies, gêneros e ordens mencionadas

 

Ordens

  • Ordem Characiformes: “Peixes com o corpo coberto de escamas. Boca em posição variável, geralmente terminal. Nadadeira com raios suaves; a dorsal localizada no meio do corpo ou depois dele; nadadeira adiposa geralmente presente, raramente ausente. Linha lateral completa. Ausência de espinhos na região ventral” (García et al, 2018, p. 47 – disponível em espanhol).
  • Ordem Gymnotiformes: “[…] caracterizado principalmente por ter órgãos elétricos, corpo extremamente alongado; ausência de nadadeiras dorsais e pélvica; nadadeira anal mais larga com movimento ondulatório, que permite aos peixes nadarem para frente e para trás; nadadeira caudal ausente, ou, quando presente, muito reduzida” (Ramos, 2010, p. 1).
  • Ordem Perciformes: “Agrupa os peixes ósseos mais avançados (Teleostes), de corpo geralmente elevado (quase mais alto do que comprido) e cores variáveis. Geralmente com mandíbulas protráteis. Nadadeira dorsal e anal composta por espinhos e raios ramificados, pélvica com alguns raios espinhosos duros. Com barbatanas peitorais e pélvicas laterais em posição torácica” (García et al, 2018, p. 119 – disponível em espanhol).
  • Ordem Siluriformes: “Peixe com o corpo sem escamas, a pele está nua ou total ou parcialmente coberta por placas ósseas. Na cabeça, podem ter até quatro pares de barbilhões (geralmente dois pares maxilares e dois pares mentonianos). Suas nadadeiras são geralmente bem desenvolvidas, as dorsais e peitorais geralmente têm um raio duro e ossificado. Suas nadadeiras pélvicas estão sempre em uma posição abdominal” (García et al, 2018. p. 139 – disponível em espanhol).

Gêneros ou nomes científicos e nomes comuns por país

  • Brycon sp.: yatorana, mamuri, yaturana, ou matrinchán (Bolívia); jatuarana ou matrinxã (Brasil); sábalo, sabaleta, zingo (Colômbia), sábalo, mahuaso, katupa ou handia (Equador) e sábalo (Peru). 
  • Curimata inornata: branquinha (Brasil); Ractacara (Equador).
  • Mylossoma duriventre: pacupeba (Bolívia),pacu-comum (Brasil), e palometa (Colômbia, Equador e Peru).
  • Piaractus brachypomus: pacú (Bolívia); pirapitinga (Brasil); paco (Colômbia,  Equador e Peru).
  • Pseudoplatystoma fasciatum: pintado (Bolívia), surubim (Brasil), pintadillo rayado (Colômbia), pintadillo tigre (Equador), e doncella (Peru).
  • Pseudoplatystoma tigrinum: chunquina, abirari (Bolívia); caparari (Brasil); pintadillo tigre (Colômbia); pintadillo tigre, ruyac bari (Equador); e tigre, puma, cebra (Peru).
  • Pimelodus sp.: griso (Bolívia); mandi (Brasil); chorrosco, barbudo, picalón (Colômbia); picalón o buluquique (Equador); e bagre cunchi, bagre, cunchi ou zungaro cunchi (Peru).
  • Prochilodus nigricans: sábalo (Bolívia); curimatã, curica ou papa-terra (Brasil); bocachico (Colômbia e Equador); challua (Equador) e boquichico (Peru).
  • Triportheus sp.: panete (Bolívia), sardinhas (Brasil), sardinas (Colômbia e Peru), e pechón (Equador).