Ictio se consolida como uma base de dados de peixes amazônicos

Ictio se consolida como uma base de dados de peixes amazônicos
abril 28, 2023 Gabriela Merizalderubio

 

Lançada em julho de 2018, a plataforma Ictio tem permitido às pessoas e organizações a participar do registro de observações de peixes em toda bacia amazônica. Esses registros podem ser feitos por meio do aplicativo Ictio (link para download) e também da página ictio.org. Hoje, Ictio tem 106.370 observações de 119 espécies/grupos de espécies (Figura 1). Entre janeiro e março de 2023, todas as novas observações vieram dos usuários do app (Figura 2), o que representa um incremento de 0,7% no número total de observações. Esse incremento mais baixo pode estar relacionado aos períodos de defeso, quando determinadas espécies não devem ser capturadas comercialmente.   

Figura 1 – Até 31 de março de 2023, Ictio reúne um total de 106.370 observações de peixes em 61.179 listas (eventos de pesca). Estas informações foram geradas em 153 (77%) das 199 sub-bacias nível 4 da Amazônia, produto do trabalho de 671 indivíduos e organizações. As observações foram registradas em Ictio entre abril de 2018 a março de 2023, e consultadas em 1 de abril de 2023. Fonte: Ictio.org Elaboração: Wildlife Conservation Society.

Figura 2 – Até 31 de março de 2023, um total de 20.233 observações de peixes foram compartilhadas em 12.442 listas (eventos de pesca) por meio do aplicativo Ictio. As observações foram registradas em Ictio entre abril de 2018 a março de 2023, e consultadas em 1 de abril de 2023. Fonte: Ictio.org Elaboração: Wildlife Conservation Society.

As observações totais se dividem em 153 das 199 sub-bacias nível 4 (BL4) da Amazônia (ou seja, 77%) (saiba mais sobre a classificação de bacias em Venticinque et al., 2016 – ‘Novo Sistema de Informações Geográficas (SIG) sobre rios e bacias para a conservação de ecossistemas aquáticos na Amazônia’). A sub-bacia ‘Madeira – acima Jamari’ permanece liderando o número de registros com 16.324 observações (Figura 3). A abrangência de cobertura da plataforma demonstra que Ictio é uma ferramenta com grande potencial para apoiar a tomada de decisão sobre o manejo pesqueiro e a conectividade dos rios amazônicos. 

Figura 3 – As 10 sub-bacias nível BL4 com mais registros em Ictio, que correspondem a 74% das observações totais. As observações foram registradas em Ictio entre abril de 2018 a março de 2023, e consultadas em 1 de abril de 2023. Fonte: Ictio.org Elaboração: Wildlife Conservation Society. 

A plataforma Ictio permite registrar 131 espécies/grupos de espécies, e mais a opção ‘Outros peixes’ (‘Fish sp’) para registrar outras espécies que ainda não estejam na base. Ao reportar espécies usando ‘Fish sp’ é importante informar a espécie pescada no campo de comentários, além de incluir uma fotografia, pois assim é possível documentar a demanda para inclusão de novas espécies que sejam de interesse dos cientistas cidadãos e eventualmente incluir estas espécies no futuro.

Das espécies/grupos de espécies registradas em Ictio, o jaraqui-escama-grossa (Semaprochilodus insignis) continua sendo a espécie mais registrada (8.564 observações), seguida por ‘Outros peixes’ (‘Fish sp’ – 7.098 observações) e o tambaqui (Colossoma macropomum) com 6.653 observações. Clique neste link para ver mapas da ocorrência de duas espécies migratórias prioritários para conservação: dourada (Brachyplatystoma rousseauxii) e curimatã (Prochilodus sp); e um gráfico das 10 espécies mais pescadas.

 

A COMUNIDADE SEGUE CRESCENDO

Atualmente, somos 671 pessoas e organizações compartilhando observações de peixes na Amazônia. Entre janeiro e março de 2023, o número de usuários do aplicativo cresceu de 645 para 658 pessoas (2% de incremento). O usuário do app com o maior número de registros realizou 746 observações na região de Loreto (Peru). 22 usuários utilizam a plataforma de upload na web para compartilhar bases de dados de monitoramento e pesquisas. Pensando em oferecer uma alternativa para as pessoas que não têm acesso constante à internet ou celulares, brevemente serão disponibilizadas ferramentas alternativas analógicas e digitais para fortalecer o monitoramento em escala amazônica.

REGISTRANDO AMEAÇAS À PESCA AMAZÔNICA

Uma função interessante do app é a possibilidade do compartilhamento de fotos dos peixes. As fotos informam a diversidade de peixes focos da pesca na bacia amazônica, são úteis para a confirmação de registros realizados pelos usuários, para a futura identificação de espécies que ainda não constam na base Ictio, e também para o registro de ameaças à pesca amazônica. 

Nesse trimestre, damos destaque aos registros de pirarucu (Arapaima gigas) nas sub-bacias do médio e alto Madeira (na Bolívia e Brasil). O pirarucu tem distribuição nativa em boa parte da Amazônia, onde a espécie tem elevada importância cultural e comercial. Atualmente, o pirarucu encontra-se ameaçado de extinção em boa parte de sua distribuição nativa pela sobrepesca. Nas sub-bacias do médio e alto Madeira, no entanto, é uma espécie invasora. Abaixo, damos destaque à foto de Yamil Nay de pirarucus pescados no rio Beni, na Bolívia (Figura 4 – ML458215121 Paiche Macaulay Library). 

Registro de paiche en las subcuencas del medio y alto Madeira

Figura 4 – Pirarucus pescados no rio Beni, na Bolívia, onde a espécie é invasora. Crédito: Yamil Nay/Macaulay Library at the Cornell Lab (ML458215121)

O pirarucu tem alto valor comercial, o que pode significar um aumento da renda para os pescadores na área em que é invasor; no entanto, é um grande e voraz piscívoro, e como espécie invasora, ele tem potencial de ameaçar os estoques nativos de importantes peixes comerciais (você pode saber mais nesses artigos científicos dos sócios da Red Carolina Doria ´Is there a future for artisanal fishing in the Amazon? The case of Arapaima gigas’ e Guido Miranda ‘Distribution of arapaima (Arapaima gigas) (Pisces: Arapaimatidae) in Bolivia: implications in the control and management of a non-native population’; e também na notícia ‘Pirarucu (ou paiche): o peixe nativo da Amazônia que virou ameaça em rios da região onde é considerado invasor’). A expansão do pirarucu invasor e seus impactos é um possível ponto de inflexão para o complexo e interligado ecossistema amazônico e precisa ser monitorada. Ictio pode ser uma importante ferramenta nesse monitoramento. 

 

Todos os mapas gerados estão disponíveis abaixo.

GLOSSÁRIO

Listas: Listas de peixes capturados em um evento de pesca.

Bacias BL4: O nível de bacia 4 é a escala que delimita todas as sub-bacias tributárias entre 10.000 km² e 100.000 km².

Observações: Registros de espécies/grupos de espécies de peixes capturados na Bacia Amazônica.

Usuários: Usuários – cidadãos amazônicos que utilizam o aplicativo ou a plataforma ICTIO; é composto principalmente por povos locais e indígenas, pescadores, grupos de gestão, associações de pescadores e cientistas.

 

Este relatório foi possível graças ao apoio da Fundação Gordon e Betty Moore. E a partir do ano fiscal de 2022 ela é apoiada pelo povo dos Estados Unidos através da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID). O conteúdo é de responsabilidade da Wildlife Conservation Society, não necessariamente reflete a visão da Fundação Moore, da USAID ou do Governo dos Estados Unidos.